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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Uma estratégia para começar a terminar os projetos que começamos

Como muitos outros programadores, eu tenho uma grande vontade de criar programas e aplicativos. Assim, vivo arranjando desculpas para começar algum projeto novo ou estudar uma nova linguagem. Passo um tempo considerável fazendo pesquisas sobre o assunto, procurando tecnologias "adequadas" (ou seja, que me agradem) e pensando como este programa seria. O problema é que dificilmente estes projetos alcançam uma primeira versão usável. Na verdade, muitas vezes eles não são nem iniciados e sempre acabam substituídos por outras ideias ou novidades. Mais ou menos assim.

Neste texto tentarei elaborar algumas ideias de como tento direcionar esta energia criativa de modo mais efetivo. Antes de tudo, eu ainda sofro deste problema e frequentemente me vejo pesquisando a fundo coisas que só seriam úteis em um eventual projeto que eu sei que não completarei. É verdade que isto me dá uma cultura geral (tecnológica) interessante, mas o custo benefício é bem baixo. São horas demais gastas em resultados de menos, por assim dizer. Porém, a técnica que descrevo neste texto me ajudou a transformar parte deste tempo gasto em algum resultado palpável.

Para mim, a melhor maneira que encontrei de direcionar essa vontade e energia criativa foi exercitá-la todos os dias ao invés de deixar tudo acumular e passar horas pesquisando. Como gosto também de escrever e, resolvi direcionar essa energia para escrever neste blog. Todos os dias escrevo por 30 minutos, de preferência de manhã, e procuro ter sempre um post pronto toda sexta-feira. Se tenho algo bom antes eu agendo para a próxima sexta e continuo a escrever. Se o assunto é extenso divido em várias partes e publico uma por vez. Já são 9 semanas com textos publicados regularmente e hoje estou no meu 17 dia de escrita seguido sem interrupção.

Um ponto essencial desta rotina é o tempo que reservo para escrever e o horário que o faço. Se eu deixo para escrever de noite existem grandes chances que eu estarei muito cansado ou que algo aconteça e eu não tenha tempo. Se eu simplesmente começar em qualquer momento do dia posso negligenciar outras tarefas mais importantes. Ou pode acontecer o contrário e eu nunca escrever pois outras tarefas são mais urgentes. Em geral, escrever se torna frustrante pois é uma tarefa que eu sei que gostaria de fazer mas acabo não conseguindo realizar a contento.

Essa estratégia está dividida em três componentes igualmente importantes: foco, hábito e objetivo.

Para exercitar o foco eu sempre escrevo usando um cronômetro. Assim que eu começo inicio a contagem e termino assim que ele alcançar os 30 minutos. O senso de urgência de ter pouco tempo para esta atividade aumenta minha concentração e faz com que este tempo seja reservado somente para a escrita. O objetivo é aprender a ligar o foco e dedicar um tempo para fazer uma atividade com 100% de concentração. É assustador o quanto conseguimos ser produtivos ao usar 100% da nossa atenção em uma só tarefa. Isto pode ser relaxante também. Muitas vezes estou menos cansado ao terminar do que antes de escrever.

O hábito é igualmente importante nesta estratégia. A regularidade evita que muita energia criativa acumule e eu resolva iniciar novos projetos e pesquisas. Gosto muito da seguinte citação, atribuída a William Falkner.

"I Only Write When Inspiration Strikes. Fortunately It Strikes at Nine Every Morning"

Além disto, a regularidade transforma uma atividade em um hábito. Da mesma maneira que todos os dias escovo os dentes ou tomo banho mais ou menos nos mesmos horário, tenho o hábito de escrever e não é necessário grande esforço para começar.

O último ponto importante é o objetivo. Ter foco e regularidade pode até ajudar a controlar nossa energia criativa e evitar que ela nos domine, mas colocar um objetivo transforma essa energia criativa em um benefício concreto para nós mesmos. Se, por exemplo, decido passar um tempo pesquisando sobre uma linguagem de programação ou tecnologia diferente, posso transformar esta busca em um tutorial ou um screencast. Ao final da busca tenho, além do conhecimento adquirido, um material escrito que demonstra meu conhecimento no assunto. Este resultado obtido pode ter o formato de contribuições para um software livre ou palestras. No meu caso, o objetivo é publicar um texto novo a cada sexta-feira. Este é o nono texto que publico seguido e me sinto mais motivado do que quando comecei.

Quando juntamos os três componentes, foco, hábito e objetivo, conseguimos domar nossa energia criativa e direcioná-la para nosso benefício. Apesar de ser somente uma pequena quantidade de tempo (30 minutos por dia), exercitar estes 3 componentes pode trazer benefícios para o restante da vida. Recomendo a todos os leitores (no plural?) fazer um teste de 30 dias e ver como este exercício afeta sua produtividade. Se gostou, comente aqui embaixo. Se não gostou pode comentar também, mas seja educado ;)

Até mais.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Porque escrevo em português

Tanto as Ciências como a área de Tecnologia (C&T) são campos muito globalizados em que a grande maioria da produção técnica e inovativa é feita em inglês. Neste contexto, escrever um blog em inglês parece uma escolha natural, tanto pelo audiência maior quanto pelo possível reconhecimento obtido. Apesar disto, decidi escrever em português por diversas razões que apresentarei neste post.

A principal razão para escrever em português é o estímulo da produção de cultura nacional. Acho muito importante que um país possua uma população que seja criativa e que produza conhecimento relevante para sua realidade. A transformação de um cidadão consumidor de conhecimento para um cidadão produtor de conhecimento é importantíssima para o desenvolvimento intelectual de um país e a disponibilidade de material em nossa língua é um pré requisito para isto. Espero contribuir para um cíclo virtuoso em que as pessoas busquem e leiam textos em português, interajam com estas publicações e, eventualmente, produzam novos conhecimentos a partir disto.

É claro que já existe muito material bom em inglês, mas exigir o domínio de um idioma estrangeiro como pré-requisito para estudar C&T é colocar uma barreira de entrada muito grande para iniciar nestas áreas. Aprender um idioma pode levar anos e mesmo pessoas que se sentem confortáveis com línguas estrangeiras frequentemente preferem (e buscam) informações em sua língua nativa. Negligenciar nossa própria língua significa excluir uma porção considerável de nossa população. É verdade que o inglês é sim muito importante no mundo atual e que aqueles que conhecem esta língua podem ter diversas vantagens, mas isto não significa que o aprendizado dos fundamentos destas áreas deva ser feito em inglês. Se aprender C&T já é desafiador, fazê-lo em um idioma não familiar é mais complicado ainda.

Por último, por vezes escrevo sobre tecnologias que aprendi durante meu trabalho e que muitas vezes possuem pouco ou nenhum material em português. Outras vezes, publico resumos de artigos científicos ou de algum assunto relacionado à minha área de trabalho atual (aprendizagem computacional). Em geral, as ideias ou tecnologias apresentadas já existem, então o foco é na apresentação do conteúdo. Logo, não existe nenhum prejuízo em escrever em português, pois nenhuma ideia inovadora está sendo perdida por causa de barreiras de linguagem.

A junção dos três argumentos me fez decidir por escrever em português. Uma produção inovadora que pode ter impacto significativo deve, na minha opinião, ser escrita em inglês, mas este blog não se encaixa nesta definição. Este blog busca a divulgação do conhecimento e um possível aumento na qualidade da produção técnica nacional. Tenho plena consciência que o meu impacto é (e provavelmente continuará sendo) pequeno, mas gosto de acreditar que se outros fizerem o mesmo a junção destes esforços pode resultar em algo de grande impacto. No pior dos casos, pelo menos uma pessoa (eu) está aprendendo e se beneficiando de tudo o que está escrito aqui e isto neste momento já é o suficiente.